Já fui como a Bebel e aprendi, a duras penas, como agradá-los
A DONA DA HISTÓRIA: Priscila Ferreira, 23 anos, professora, São Paulo, SP
Me casei com o Paulo* aos 19 anos. Ele era piloto e foi transferido pra outro Estado. Vinha pouco pra casa e, certo dia, recebi uma ordem de despejo. Paulo não pagava os aluguéis. Entrei em desespero e liguei pra ele. Sabe o que me disse? "Se vira! Se você for despejada, volta pra casa dos seus pais." Lembrei-me na hora do outdoor que tinha visto dias antes pela janela do ônibus quando saí para procurar emprego. Era o anúncio do Café Millenium, uma casa de prostituição. Decidi ir até lá tentar a sorte.
Sem grana, pedi R$ 10 emprestados a uma vizinha, me arrumei bem bonita e fui até a boate. No dia seguinte, fiz meu primeiro programa, com um garoto de 18 anos. Ele foi legal comigo. Mas, quando acabou, me senti o lixo do lixo. Fui pro banheiro e chorei: "Meu Deus, isso é errado!" Eu não via outra saída e continuei. Fazia até três programas por noite,a R$ 500 cada.Dinheiro rápido, mas não abençoado. Gastava quase tudo em roupas e cabelo. Com o resto pagava as dívidas.
A VIDA FÁCIL É DIFÍCIL
Vender o corpo não tem nada de fácil. Pra ter coragem eu bebia. E só conseguia transar com todos aqueles homens se os beijasse na boca, coisa que prostituta não faz. Para fingir excitação e facilitar a penetração botava um gel lubrificante dentro da vagina. Daí me imaginava com outra pessoa e transava. Depois era só vazio.
Nunca fiz sexo anal com os clientes nem transei a três. Mas fiz um negócio chamado Maracanã, que rola em despedidas de solteiro. Os amigos vão pra um quarto e transam todos ao mesmo tempo, mas sem troca de casais.
SAÍ DA "VIDA" POR AMOR
Um dia um cliente fixo me deu o bolo e um dos sócios da boate quis fazer um programa. Transamos e foi mágico. O Caio* passou a ir me ver todos os dias. Até que, meses depois, me pediu em namoro, mas só se eu não me prostituísse mais. Eu, claro, aceitei!
Estamos juntos há quase um ano e vamos nos casar. Eu voltei a morar com meus pais e estou fazendo faculdade de tradução. Não me arrependo do que fiz, porque aprendi muito sobre os homens vendendo meu corpo. E aqui, conto tudo o que descobri. Confira!
AS DIFERENÇAS ENTRE A NOVELA E A VIDA REAL
A Bebel não repete roupas, tem um armário de luxo e sapatos deslumbrantes. X Uma prostituta de rua ganha, em média, R$ 80 por programa. Só o sapato da Bebel custa, no mínimo, R$ 350. Seria impossível ela manter aquele guarda-roupa.
Apesar de morar de favor no apartamento do cafetão Jader, reclamar de falta de grana e nunca ir ao cabeleireiro, a Bebel tem a pele impecável, os cabelos bem tratados e é linda até à luz do dia. X As prostitutas são produzidas, não necessariamente bonitas. Sobem num saltão, minissaia, blusa com bojo, maquiagem caprichada, cabelo megahair escovado. Que mulher não ficaria maravilhosa?
Mesmo trabalhando no calçadão, a Bebel encontrou um ricaço pra chamar de seu. Ela é barraqueira, mal-educada, vulgar. Até fez um curso pra aprender a ter "catigoria", mas não melhorou muito. Mesmo assim, o Olavo, que tem berço, é apaixonado por ela. X Homens como o Olavo não saem com mulheres desse tipo. Querem alguém de classe, que passe despercebida na sociedade. Na vida real a Bebel não teria a menor chance!
*Os nomes foram trocados para preservar a privacidade dos envolvidos.
Autor: Reportagem - Daniela Zebini